BIBLIOTECA

Confesso hoje que tou macambúzio. Bom dia senhoras e senhores todos do meu confessionário, vocês tão diante de um sujeito macambúzio. Um elemento macambúzio é uma pessoa triste, mal humorado, acabrunhado e retraído. Isso porqwue amanhã que é 25 de outubro é o dia em que eu nasci no Hospital João Ferreira de Lima em Timbaúba, e assim eu na véspera de completar anos, a gente fica de astral baixo, pelo menos é assim comigo. Não gosto de comemorar aniversário. Só quando vivia na gandaia, aproveitava a data pra tomar porres homéricos com outros pé de cana, e eu pergunto a tu: o que vem a ser porre homérico? Não sei porque chamam aquela cachaça sem lei que a gente às vezes tomava, por que se chama porre homérico? Tou lendo aqui na enciclopédia que Homérico é um adjetivo que se refere ou pertence ao poeta grego Homero, a suas obras, ou a seu estilo: “poemas homéricos”, “tempos homéricos”, “período homérico”. Mas não explica o que tem Homero com bebida, com aquelas farras em que se bebe como não tivesse amanhã. Eu confesso que não sou uma pessoa boa. Outro dia um amigo meu me lembrou uma coisa que eu fiquei com vergonha de mim. Ele disse: Fábio, tu lembra quando foi no teu aniversário, a gente do grupo se reuniu e comprou um presente pra tu, e tu simplesmente recusou o presente? Foi uma decepção que até hoje a gente lembra. Cacilda! Juro que não me lembrava desse lance! Mas, se foi assim, eu fui realmente um patife, porque não se faz isso com ninguém, é uma falta de consideração do tamanho do mundo. Definitivamente, não sou um elemento cem por cento. Teve outra ocasião, na cidade de Mari, dia do meu aniversário fiquei sabendo que a galera da rádio comunitária preparava uma festinha surpresa, que ia rolar à noite. Daí que eu fui me esconder num cabaré de uma tal de Mamãe Chorar e fiquei por lá tomando garapa até ficar tarde da noite, frustrou a festinha, a mundiça ficou muito decepcionada comigo, mandaram me procurar por todo canto, e eu escondido no bar de Mamãe Chorar, no puxadinho atrás do bar, tomando zinebra. Confesso que não gosto de gente me parabenizando, desejo saúde, felicidades, muitos anos de vida, acho isso tudo tão hipócrita que eu sou uma pessoa neurastênica dá vontade de ser mal educado e dizer assim: mano, no próximo ano vê se tu esquece do meu aniversário, faça essa consideração, mano. Porque na minha família não tem essa cultura de festejar aniversário de ninguém não, as datas de aniversário passam e ninguém lembra, só o aniversariante, mas esse mesmo fica na dele, não lembra a ninguém, é uma coisa íntima. E com essas redes sociais, neguinho é forçado a saber dos aniversários dos outros, daí fica aquela putaria de mandar mensagens dissimuladas, tipo a pessoa no fundo odeia o aniversariante, mas bota mensagem de parabéns, na boa, cara de pau. Tou fora. Esse ano aprendi a ocultar a data do meu aniversário no Facebook, editei o perfil, o Face não vai avisar a ninguém do meu natalício amanhã. Menos mal. Na minha família, o único que lembrava de meu aniversário: meu pai quando era vivo. Pai sempre me dava invariavelmente uma camisa do Botafogo ou do Náutico, todo ano. Ele se foi, minha coleção de camisas estagnou. E meu pai tinha outra ideia que eu odiava, mas pai é pai, tu tem que aturar. No meu aniversário ele contratava aquelas empresas de telemensagem pra telefonar pro aniversariante desejando feliz aniversário, e mais uma série de bobagens idiotices, cafonas, bregas, ao som de uma melodia ainda mais brega, coisa horrível! Era a pior parte, mas eu recebia os telefonemas em consideração ao meu velho, que achava aquilo muito legal. Hoje eu queria receber uma mensagem brega daquelas, juro que queria. Minha mãe sempre foi discreta, mas lembrava das datas dos filhos. Hoje ela não lembra mais, ta com quase 90 anos e perdeu a memória.  

A astróloga Madame Preciosa explica que é normal ter essa sensação de nostalgia misturada com uma certa angustia no dia do aniversário, porque você repara com mais atenção no tempo, para pra pensar como foi sua vida, compara com o atual e anos anteriores e se pergunta como será nos futuros. Aí vem uma certa deprê. Daí essa minha vontade de passar despercebida essa data querida, confesso. Gosto de ficar incomunicável, sem bolo, sem aglomeração, sem tirar a máscara, sem gente mascarada me falando falsas coisinhas idiotas. Mas tem gente que gosta, tem uma senhora que conheço que ela comemora aniversário três, quatro vezes por ano. Pense numa mulher aniversariadora! Exagerada! É das que gostam de festas tipo sucesso de audiência, gosta dessas convenções sociais de desejar felicidades quem tu odeia.

Toda cultura tem seus protocolos e convenções. Eu olhei aqui no Google: Aparentemente, a origem da comemoração do aniversário está na civilização grega. De acordo com as tradições antigas, e isso inclui outras civilizações, o motivo de comemorar era de proteger o aniversariante de “demônios” ou “maus espíritos” e de desejar um bom ano que começava. Dar presentes garantia maior proteção ainda. Pois sendo assim, eu tou desprotegido geral porque sei que não vou ganhar presente algum. O único ser humano que me presenteava no aniversário já subiu pra outro astral. De qualquer forma, minha gratidão a você que vai lembrar do meu aniversário, e sem protocolo, vai me desejar sorte, mentalmente. Sem formalidades idiotas. Um abraço, e até domingo.

 

 

 

 

Fabio Mozart

Sociedade Cultural Poeta Zé da Luz

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Fechar